domingo, 12 de setembro de 2010

“Abre essa janela, primavera quer entrar...”


Sinto o sol reaquecendo a casa, fazendo brotar vida adormecida durante um gélido e longo inverno. Flores são o símbolo dessa exuberante estação que nos brinda com sua beleza e sensação de reflorescer. Reanimar. Revigorar.
Pulsa no peito o desejo de uma nova era. Era dos sonhos, da vida que segue, do triunfo da vitória. Em seu olhar, o tilintar dos sinos que dizem: “já é hora”. Hora de colocar em prática aquilo que aprendeu com a doença e vislumbrar dias de muita luz.
O enxoval quase feito, os cabelos resolveram vir ao encontro, os estudos prontos! A roupa começa a ter mais cor, a boca imita a flor e os dias com mais sabor. Ainda corre em busca da silhueta, a fé sempre fresca e a doçura de ser alguém que não se queixa.
Em meio ao azedume que viveu, adubou e regou a terra hostil e inóspita. Deixou a luz entrar e o jardim começou a desabrochar. Nele renasceu: rosas, jasmins, hortências, violetas, antúrios, margaridas, copos de leites, crisântemos, tulipas, girassóis... Camila.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Esther.



Significa estrela. Estrela guia. Estrela que me guia. Que guia a nós. Irmã da mãe. Nossa tia. Quase mãe. Um café, um almoço e um conselho. Uma coca-cola, um suco e mais conselhos. Um conselho sobre a vida, a roupa e o cabelo. Um conselho sobre o namorado, casamento e emprego. Papo longo, papo curto, tudo é motivo pra papo. Papo sempre bom. Papo às vezes chato. Papo sem papas na língua.
Diz-se baixinha, eu digo que é! A mais das irmãs. Mas é baixinha só no tamanho. Abraça o mundo, pois é boa, boa de coração. O gênio é meu também, numa versão melhorada que a idade ajudou a compor. Eu digo que é mãe do filho luminoso e é filha iluminada.
Presente em tudo. Na saúde e na doença. Principalmente na doença. Estava lá quando soube que tinha câncer, estava lá quando partiu. Ouviu seu último suspiro, sentiu o seu penar. No velório discursou: “Vai minha irmã querida, descanse em paz”. Eu cuido aqui das meninas, na verdade isso não foi dito. Ficou implícito. Cuidou. Cuida.
Cuida da Camila e da sua dor, pede para não raspar a cabeça, que é pra deixar que os cabelos se vão. Pede pra usar a peruca, compra a peruca. Pede que eu seja melhor, melhor de gênio, melhor de jeito, melhor por dentro. Cuida oferecendo sua casa num dia de sol ou chuva. Cuida ligando pra saber como estamos. Cuida ausente. Cuida com os olhos.
Outrora, foi Teté. Hoje Tia Esther. Um dia meio avó Esther. Para sempre quase mãe Esther.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Uma música pra ela.

Mamãe cantarolava essa música despretensiosamente, porém no fundo era sim para os seus três filhos. Ainda ouço-a cantar pela casa, um canto sereno juntamente como regava as plantas e como ao final da vida murmurava palavras doces de despedida. Hoje sou eu que canto a mesma canção pra ela “ ... agora era fatal que o faz de conta terminasse assim, pra lá deste quintal era uma noite que não tem mais fim, pois você sumiu no mundo sem me avisar e agora eu era um louco a perguntar, o que é que a vida vai fazer de mim?” Fez!


sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Do lado direito do peito.

Eu tento não pensar que serei a próxima. Mas, confesso que não é fácil! Vivi até então e pude assistir sangue do meu sangue adoecer. De formas distintas as duas padeceram do mesmo mal. Sou filha e irmã, mas sou Fernanda e desejo não querer pra mim. Mas penso. Resisto, mas penso. Não vou ser a próxima. Mas penso.
A dor de perder a mãe ficou acumulada no peito. A minha dor andou por onde durante esse tempo? Diluída em doses homeopáticas em cada pedaço de mim, que ainda sangra quando penso que foi... da maneira que foi. Eu, Camila. Somos acima de tudo irmãs. Mas, processamos o sofrimento de maneira oposta.
Adoeço também. Adoeço angustiada. Sofro mais. Faço estardalhaço. Ela se cala. Choro de soluçar. Ela chora calada. Bato a porta raivosa. Ela bate silenciada.
Se pensarmos, eu tinha todos os ingredientes para que isso acontecesse comigo. Mas se pensarmos melhor, eu ainda apesar de tudo, guardo, falo, guardo, grito, guardo, falo mal. Ela guarda, guarda, guarda e guardará para sempre... do lado direito do peito.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

(Eu) Choro.

No banho. No Carro. Sozinha. Com gente.
No culto. Em casa. Andando sorrateiramente.
(Eu) Choro.
Com músicas. Com fotos. Com livros.
Por ELE. Por nós. Por motivos.
De dor. De felicidade. De saudade.
(Eu) Choro.
Cansada. Entristecida.
Esperançada. Comprometida.
Com fé. Em pé.
(Eu) Choro.
Por sonhos. Trabalhos. Filhos ainda amados.
Por Lucas. Por Vera. Por ELA.
(Eu) Choro.
Por colo. Afago. Cuidado.
(Eu) Choro.
Sim. Por mim. Pelo fim.
"Guerreiros são pessoas, tão fortes, tão frágeis"

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Cabelos à vista!!

Uma penugem de neném. Finos, escuros e com vestígios ainda da careca. É um dilema, se olha no espelho e não se reconhece. Reconhece à falta de cabelos, a retenção de líquidos causada pelo corticóide, à mutilação do seio!
Mas reconhece que tudo tem um prazo. E que é preciso paciência, pois tudo voltará ao normal. Normal como antes? Nunca mais.
Outro cabelo, outra careca, outra cabeça. Eu diria ainda melhor! É de espantar a leveza como fala de sua vida, dos seus sonhos e até mesmo das suas dores. Dores causadas hoje pela sua aparência é fato. Quase chorou ao confessar: “parece que preciso dar satisfação do meu estado para todos, é como se eu estivesse afrontando alguém, é uma agressão o modo que me olham, às vezes me incomoda! E entendo que ficarei nessa situação por um tempo”.
Como é difícil. Eu queria possuir o poder da mágica para dar a ela o dom da invisibilidade, mas que ironia o que escrevo! É exatamente o contrário, temos que enxergá-la todos os dias. Eu preciso disso, é o meu combustível, é a certeza de que a vida continua. Mesmo sem cabelos, ela permanece viva.
A vida dela não para. A vida ficou parada aos donos dos olhares indiscretos e maléficos, pois perderam o seu tempo nesse breve instante quando não entenderam que é apenas aquilo que viram. Nada mais!
Antonie de Saint-Exupéry autor do livro O pequeno príncipe escreveu: "O verdadeiro homem mede a sua força quando se defronta com o obstáculo". A força da Camila é imensurável, os obstáculos são postos diariamente e um por um ela vai implodindo como quem manda aos ares um rochedo arraigado. Ainda bem que existem no mundo pessoas fortes. Camila é uma.
O ano chega a sua metade e ela traz em seus ombros uma carga inestimável. Em seus pés a fé que precisa prosseguir e na sua cabeça não os cabelos, mas a única certeza: saúde!





quinta-feira, 15 de julho de 2010

Eu envolvida...



Não somente com a enfermidade da estação. Mas com a doença do caráter, penso na moça ofertada aos cães raivosos que fez meu estômago saltitar passos ritmados. Inconcebível tal fato, pela brutalidade e indícios de crueldade. É digno de aversão coletiva, nos faz refletir que o mundo está “ao Deus dará”, entregue a penúria, ao acaso, sem rumo, sem norte.
Eu envolvida...
Não somente pelo desejo de ser mãe. Mas naqueles filhos no comando de uma casa. Modismos ditam o novo estilo de vida? Inversão dos tais valores. Hoje nada mais do que clichê perdidos juntamente com investimentos na educação e incentivo ao posto de novos cidadãos.
Eu envolvida...
Não apenas em virar Cinderela e morar num castelo encantado. Mas, pensando nas famílias que vivem no lixão e que de lá tiram seu sustento, alimento e formação.
Eu envolvida...
Não apenas em como melhorar minha profissão. Mas naqueles que adoecem por conta do estresse no trabalho fazendo sugar todas as energias, além de devorar o paradigma de mens sana in corpore sano.
Eu, comigo mesma, estabeleço uma conversação. Pacífica. E percebo que de tanto ficar envolvida com enigmas de difícil resolução, noto, que para todas as minhas charadas existe sim uma solução! E com direito a mapa da mina. Nesse pergaminho, existem dois caminhos: o primeiro árduo e repleto de curvas sinuosas, o segundo dotado de majestosas e frondosas paisagens. Nesse momento estou na encruzilhada pensando "conseguirei o pote de ouro, mas posso poupar minha saúde e tempo buscando aquilo que me faz bem. Com o pé direito, dou o primeiro passo "